Notas ao café…

A quarta rodada

Posted in notas ao café by JN on Junho 12, 2010


Petar Pismestrovic, «Kleine Zeitung»

Um dia depois de o Conselho de Segurança das Nações Unidas ter aprovado uma quarta rodada de sanções contra o Irão devido ao programa nuclear deste país, que é considerado ilícito por boa parte da comunidade internacional, o governo iraniano advertiu que o país poderá reduzir a sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Ao mesmo tempo, o Presidente Mahmoud Ahmadinejad afirma que as sanções não terão qualquer efeito e apenas servem para “deitar ao lixo”. O Presidente iraniano também acusa as potências nucleares mundiais de “monopolizarem” a ciência e a tecnologia em benefício próprio e que o Presidente Barack Obama interfere em assuntos internos de outros países da mesma maneira que seu antecessor, George W. Bush. Dos 15 países com assento no Conselho de Segurança, 12 votaram a favor da resolução na quarta-feira: Brasil e Turquia, votaram contra e o Líbano absteve-se.

Irão é obrigado a permitir que inspectores da AIEA inspeccionem as suas instalações nucleares em Natanz e informar esta agência sobre eventuais planos em expandir seu programa nuclear. Autoridades ocidentais sugeriram que o Irão poderia responder com restrições do acesso a mais inspectores como retaliação à imposição de novas sanções e/ou aumentar o nível enriquecimento de urânio no seu país, algo para o qual possui actualmente a tecnologia.

Por si só, esta quarta rodada de sanções não vai impedir o Irão de enriquecer urânio, algo em que muitos países acreditam que é o que o Irão está a fazer com o objectivo de produzir armas nucleares. O que os diplomatas ocidentais esperam é que a pressão sobre o Irão, reforçada pela possibilidade de uma guerra com Israel, forcem aquela país a voltar à mesa de negociação. O fato de que China e Rússia terem votado a favor da resolução pode aumentar o isolamento do Irão — a Rússia chegou mesmo a suspender o acordo de fornecimento de misseis terra-ar ao Irão. Mas os iranianos estão também cientes foram precisos meses de difíceis negociações para chegar até às novas sanções e estas não são tão duras quanto americanos, britânicos e franceses desejavam.


Olle Johansson

Matthew Levitt, na Foreign Policy, escreve que as sanções podem de facto vir a funcionar já que o país ficará gradualmente mais isolado internacionalmente. A The Economist escreve que embora longe de serem perfeitas, as sanções são melhor do que a alternativa e que a única forma de impedir o Irão de obter uma arma nuclear, algo quase inevitável, é aumentar o seu custo:

[T]his week’s resolution can’t stop Iran crossing the nuclear threshold. That is true; but there is no way of stopping a country going nuclear if it is prepared to find enough cash and face down international censure. Even air strikes would only buy time—an uncertain gain at a huge cost. The best deterrence, therefore, is to raise the price of a bomb and deepen the disgrace. That is what this week’s sanctions were all about.

Para Robert Dreyfuss, no The Dreyfuss Report da The Nation, as novas sanções além de irrelevantes são uma derrota da diplomacia:

[…] The fact is that the resolution will make it harder, not easier to achieve a diplomatic breakthrough on Iran’s nuclear program. That’s because it will make it more difficult for Iran’s fractious leadership to make any conciliatory move without appearing to be caving in to international pressure.

For Obama, who tried to open the door for dialogue with Iran, Res. 1929 is a symbol of his failure. Since military action has been ruled out, the choice are between diplomacy and containment of a post-nuclear Iran. In that choice, the sanctions are irrelevant. But they do make the diplomacy a lot harder. For the administration, the best that can be said is that the sanctions are an effort to buy time, to stave off the Congressional crazies who demand actions such as naval embargos of Iran and the neoconservative lunatics who want to bomb, bomb, bomb, bomb-bomb Iran. Unfortunately, President Obama, it only encourages them.


Jimmy Margulies, «The Record of Hackensack»

África do Sul 2010

Posted in notas ao café by JN on Junho 11, 2010


Chappatte, «Le Temps»

Quando em 1998 perguntaram a João Havelange, o então Presidente da FIFA, se ele se considerava o homem mais poderoso do mundo, este respondeu:

I’ve been to Russia twice, invited by President Yeltsin … In Italy, I saw Pope John Paul II three times. When I go to Saudi Arabia, King Fahd welcomes me in splendid fashion … Do you think a head of state will spare that much time for just anyone? That’s respect. They’ve got their power, and I’ve got mine: the power of football, which is the greatest power there is.

E a competição rainha do desporto rei começou hoje e durante algum tempo o mundo até se pode esquecer da crise e outros problemas: já decorre o Campeonato do Mundo de Futebol da África do Sul e 46 milhões de sul-africanos já festejam a vitória festejam o empate da sua selecção sobre o México.


Emad Hajjaj

Vai começar um dos maiores eventos mundiais e durante algum tempo o mundo até se pode esquecer da crise e outros problemas: o Campeonato do Mundo de Futebol da África do Sul começa hoje. O grupo de Portugal — que engloba o Brasil, a Costa do Marfim e a Coreia do Norte — já é conhecido pelo “Grupo da Morte“. Neste grupo, Brasil e Portugal são os favoritos, da Coreia do Norte pouco se espera, mas há sempre a Costa do Marfim. Embora não seja a favorita, o seu capitão, Didier Drogba o “Rei” deste campeonato; ele é considerado o melhor jogador africano da sua geração, o favorito dos adeptos africanos, e o responsável, como escreve o allAfrica, de ter conseguido unir o seu país e que lados opostos depusessem as armas.

Mas neste campeonato há outros grupos. O blog “Goal” do New York Times, descobriu um outro que se caracteriza por os seus países viverem algum tipo de crise ou controvérsia, no caso o Grupo B.

O “Goal” chama a este grupo o “Grupo da Terapia” e é constituído por três países que passam por uma crise económica ou política: os problemas actuais da Grécia são bem conhecidos; a Coreia do Sul vive mais uma crise com o seu vizinho do norte; a Nigéria vive um período de violência étnico-religiosa além de uma crise política devido à recente morte do seu Presidente Umaru Musa Yar’Adua e por fim a Argentina que ultrapassou uma crise — embora a Presidente Cristina Kirchner continua sempre envolvida em polémicas — mas tem o “deus” Maradona, sempre polémico e que ainda não deu provas de poder levar a selecção do seu país a bom-porto.

Mas nem só de futebol se falará neste campeonato. Brian Fung, na Foreign Policy, escreve sobre alguns dos aspectos políticos que estarão presentes na África do Sul: o grupo de activistas Zimbabwe Democracy Now pretende utilizar o palco do futebol mundial para denunciar o regime de Robert Mugabe; a China que não participa tudo fez para que uma conferência sobre a Paz onde o Dalai Lama iria participar fosse cancelada; o problema do tráfico humano aumentou, principalmente na Etiópia, devido a promessas de falso emprego na África do Sul; as ameaças de greve na África do Sul, manifestações e os problemas com os chamados “campos de concentração” onde foram colocados todos aqueles que tiveram de abandonar as suas casas devido aos jogos.


Paresh Nath, «The Khaleej Times»

Assunto que pouco terá de desportivo mas sempre presente na sociedade sul-africana, a violência e a insegurança — os recentes assaltos a jornalistas  e jogadores estrangeiros bem o demonstram. Embora muitas melhorias sejam constatadas, a África do Sul é um país violento, como escreve Finlo Rohrer da BBC.

Para não faltar nada, a estrela silenciosa deste mundial também sofre contestação; fala-se da bola oficial, a Jabulani. Jogadores e treinadores criticam a bola, os engenheiros que a conceberam defendem-na.


Patrick Corrigan, «The Toronto Star»

Relaxar

Posted in fotografia ao café, palavras ao café by JN on Junho 10, 2010

“O nosso espírito deve relaxar: ficará melhor e mais apto após um descanso. Tal como não devemos forçar um terreno agrícola fértil com uma produtividade ininterrupta que depressa o esgotaria, também o esforço constante esvaziará o nosso vigor mental, enquanto um curto período de repouso restaurará o nosso poder. O esforço continuado leva a um tipo de torpor mental e letargia.”

Séneca, in «Da Brevidade da Vida»


Foto de Zul-photo

Obama vs. BP

Posted in notas ao café by JN on Junho 10, 2010


Joep Bertrams

We are determined to fight this spill on all fronts, in the deep water of the Gulf, in the shallow waters, and, should it be necessary, on the shore.

Tony Hayward, CEO da BP, a 30 de Abril, num momento inspirado certamente por Winston Churchill onde tudo prometeu fazer para controlar e conter o derrame de petróleo no Golfo do México.

We’re sorry for the massive disruption it’s caused their lives. There’s no one who wants this over more than I do. I would like my life back.

Tony Hayward, a 31 de Maio, pede desculpa pela “perturbação” que o acidente com Deepwater Horizon pode ter causado às populações afectadas, depois de muitas tentativas falhadas para conter o derrame. Viria mais tarde a pedir desculpa por ter afirmado que “gostaria de ter a sua vida de volta”; afinal onze pessoas morreram no acidente, milhões de litros de petróleo foram derramados no Golfo do México que destruíram ecossistemas, causaram a morte de milhares de aves, mamíferos, peixes e a ruína de muitos pescadores. Se somarmos a isto todos os relatórios internos que durante uma década alertaram para o facto da BP repetidamente ignorar regras de segurança ambientais e de funcionamento, o Sr. Hayward bem pode pedir desculpa.


J.D. Crowe, «Mobile Register»

I was down there a month ago, before most of these talkin’ heads were even paying attention to the gulf. A month ago I was meeting with fishermen down there, standin’ in the rain talking about what a potential crisis this could be. and I don’t sit around just talking to experts because this is a college seminar, we talk to these folks because they potentially have the best answers, so I know whose ass to kick.

Barack Obama, Presidente dos EUA, irritado com o que se está a passar, com a falta de soluções, as quedas nas sondagens e a querer “bater” em alguém.


RJ Matson, «St. Louis Post-Dispatch»

Scott West, na Truthout, escreve que atribuir “culpas” é algo importante e que deve ser feito, mas mais importante do que isso é aprender com os erros cometidos.

A rota da cocaína

Posted in notas ao café by JN on Junho 10, 2010


Ares, «Cagle Cartoons»

A África Ocidental tornou-se “vítima” dos vícios do europeus ao transformar-se uma rota atractiva para os traficantes de cocaína da América Latina nos últimos anos, segundo o relatório de 2009 do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime). A 8 de Junho deste ano, duas toneladas de cocaína (com um valor de rua estimado em cerca de mil milhões de dólares) foram apreendidas na Gâmbia. Embora o uso de cocaína na América tenha diminuído cerca de 50 por cento nas últimas duas décadas, em alguns países europeus as taxas de consumo duplicaram ou triplicaram. Leis frágeis sobre a lavagem de dinheiro, corrupção nos meios governamentais e policiais, ao que se alia a pobreza de muitos destes países, são factores que contribuem para o sucesso do tráfico nesta zona africana; estima-se que cerca 150 toneladas de cocaína atravessem esta região por ano. Em 2006, 36 por cento dos traficantes de cocaína detidos em aeroportos europeus eram oriundos da África Ocidental. Em 2008, esse número caiu para 17 por cento.  Ao mesmo tempo a quantidade de droga apreendida na África Ocidental também diminuiu. Se estes dois factos reflectem uma queda no comércio ou em técnicas de tráfico mais elaboradas, como escreve o Africa Confidential, ainda não é claro.

[Fonte: The Economist]

O veredicto da Bophal

Posted in notas ao café by JN on Junho 10, 2010

8 de Junho: Um homem limpa o pó das fotografias das pessoas que perderam a vida no acidente ocorrido na Bhopal, uma fábrica de pesticidas, em 1984, na Índia. Mais de quatro mil pessoas morreram nas 24 horas que se seguiram à fuga para a atmosfera de gases tóxicos e estima-se que o total de mortos desses primeiros dias tenha chegado aos oito mil mortos. O Governo de Nova Deli fala, apenas, em três mil. A substância tóxica, que dá pelo nome de isocianato de metila ataca as vias respiratórias até à asfixia e causa cegueira (Prakash Hatvalne/Associated Press).

E 26 anos depois, oito homens (um já falecido) foram condenados. Acusados inicialmente de homicídio, os arguidos viram a acusação reduzida em 1996 para “morte por negligência”, um crime punido com um máximo de dois anos de prisão, na Índia. A sentença foi lida à porta fechada e recebida com decepção: dois anos de prisão e a uma multa de cerca de 1.700 euros. Os acusados foram de imediato libertados após terem pago uma fiança de cerca 440 euros. Ainda se desconhece se a sentença afecta Warren Anderson, ex-presidente de Union Carbide, de nacionalidade americana, que está foragido da justiça indiana e que não compareceu aos interrogatórios do caso, iniciados há 23 anos.

Novas sanções ao Irão

Posted in notas ao café by JN on Junho 9, 2010


Dave Granlund, «Politicalcartoons.com»

Uma resolução que impõe um novo pacote de sanções contra o Irão já está pronta para ser votada pelo Conselho de Segurança da ONU; pela voz do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, a Rússia é um dos países que concorda com as novas sanções — algo contrário ao que se passou até há algumas semanas. As sanções têm como alvo o programa nuclear iraniano, que países ocidentais acusam de ter fins militares, algo que  Teerão continua a negar. Os diplomatas da ONU esperam que a resolução seja votada nos próximos dias, e apesar dos esforços diplomáticos por parte de Washington não deverá contar com o apoio de todos os membros do Conselho de Segurança, como o Brasil e a Turquia.

Por seu lado, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou que seu país irá desistir das negociações sobre seu programa nuclear caso o Conselho de Segurança aprove o novo pacote de sanções contra o seu país. Durante uma visita a Istambul, na Turquia, para uma reunião regional sobre segurança, o líder iraniano afirmou que a recente proposta de acordo nuclear, mediada pelo Brasil e a Turquia, era uma oportunidade única que não será repetida; para o Sr. Ahmadinejad o acordo de Teerão deu aos EUA e seus aliados uma nova oportunidade que ele espera que usem da melhor forma possível — acordo que os EUA acham que já chegou tarde e ao qual dão pouco crédito até por recentes relatórios da Agência Internacional de Energia Atómica. Ao mesmo tempo enviou recados a Moscovo para não se colocarem ao lado dos inimigos do povo iraniano


Stephff

O New York Times publicou um artigo onde descreve os estratagemas utilizados pelo Irão, através da companhia estatal Islamic Republic of Iran Shipping Lines, para contornar as sanções de que é alvo. A companhia de transporte marítimo criou uma série de empresas de fachada para camuflar a origem dos seus navios e muda frequentemente o nome dos mesmos tornado difícil o trabalho do o Departamento do Tesouro americano em manter uma “lista negra” actualizada.

[A]n examination shows how Iran has used a succession of stratagems — changing not just ships’ flags and names but their owners, operators and managers, too — to stay one step ahead of its pursuers. This cat-and-mouse game offers a case study in the difficulties of enforcing sanctions.

“We are dealing with people who are as smart as we are, and of course they can read our list,” said Stuart A. Levey, the under secretary of the Treasury who oversees the sanctions effort and the blacklist of Irisl and its fleet.

That blacklist simply hasn’t kept up. […]

No comments (96)

Posted in no comments by JN on Junho 9, 2010

Vodpod videos no longer available.

Se fosse a minha casa

Posted in notas ao café by JN on Junho 9, 2010

O siteIf It Was My Home” permite-nos ter uma real dimensão da extensão da mancha de petróleo no Golfo do México. Utilizando o Google Maps permite-nos colocar a mancha em qualquer lugar do mundo. Os autores do site afirmam que as dimensões da mancha são actualizadas diariamente, segundo os dados fornecidos pela National Oceanic and Atmospheric Administration. Esta é imagem obtida colocando-a sobre Portugal; mais de metade do país estaria coberto de petróleo:

[Via: Strange Maps]

Do Golfo à Amazónia

Posted in notas ao café by JN on Junho 8, 2010


Steve Breen, «The San Diego Union-Tribune»

O presidente da BP, Tony Haywards, afirmou neste domingo que o sistema de recuperação de petróleo da BP está a funcionar e actualmente recuperam para a superfície 10 mil barris de petróleo por dia; 24 horas depois de ter sido colocada a cobertura sobre o poço da fuga, já foi recuperado quase um milhão de litros de crude. Ainda assim, são derramados por dia entre dois a três milhões. O grupo britânico quer reduzir a fuga para 160 mil litros diários.

No entanto, a Guarda Costeira americana adverte que mesmo que o fluxo de petróleo seja controlado até ao verão, só no outono é que se poderá fazer algo no que respeita aos danos causados no Golfo. E como escrevem Warren P. Strobel e Patricia Mazzei no McClatchy, é já tarde para a costa da Florida e os danos provocados nos ecossistemas irão demorar anos a serem sanados. Para agravar ainda mais a situação, cientistas podem ter descoberto uma segunda fuga de petróleo no Golfo do México.


Parker, «Florida Today» & «Cagle Cartoons»

Bob Herbert, no New York Times, escreve sobre outro desastre ecológico relacionado com o petróleo; este nas florestas tropicais do Equador:

BP’s calamitous behavior in the Gulf of Mexico is the big oil story of the moment. But for many years, indigenous people from a formerly pristine region of the Amazon rainforest in Ecuador have been trying to get relief from an American company, Texaco (which later merged with Chevron), for what has been described as the largest oil-related environmental catastrophe ever. […]

Texaco came barreling into this delicate ancient landscape in the early 1960s with all the subtlety and grace of an invading army. And when it left in 1992, it left behind, according to the lawsuit, widespread toxic contamination that devastated the livelihoods and traditions of the local people, and took a severe toll on their physical well-being.

A brief filed by the plaintiffs said: “It deliberately dumped many billions of gallons of waste byproduct from oil drilling directly into the rivers and streams of the rainforest covering an area the size of Rhode Island. It gouged more than 900 unlined waste pits out of the jungle floor — pits which to this day leach toxic waste into soils and groundwater. It burned hundreds of millions of cubic feet of gas and waste oil into the atmosphere, poisoning the air and creating ‘black rain’ which inundated the area during tropical thunderstorms.” […]

O “arrependimento” húngaro

Posted in notas ao café by JN on Junho 8, 2010


Angel Boligan

Depois do governo da Hungria ter feito todos os possíveis, na semana passada, para convencer o mundo que a economia húngara estava em colapso e que a Hungria seria a próxima Grécia — embora este país não faça parte da zona euro — chegou a hora do arrependimento; o governo agora faz tudo para reparar o seu “erro”:

“The comments that have been made about this issue are exaggerated,” said prime ministerial spokesman Mihaly Varga. The Hungarian currency dropped 6% against the euro after government officials compared the country’s fiscal position with Greece late last week. The forint has since stabilised at about 288 to the euro.

Mr Varga added that a target budget deficit for 2010 of 3.8% of GDP, set by the International Monetary Fund, was still “achievable”. This is despite last week’s government estimate that the deficit could hit over 7%. […]

O Sr. Vargas afirmou que a comparação entre a Hungria e a Grécia foram “infelizes”, embora tenham sido feitas pelo porta-voz do seu partido. Provavelmente o governo húngaro tentou mostrar que o país estava numa situação pior do que realmente está para fugir às culpas de não terem cumprido a promessa eleitoral de diminuírem os impostos — o Alphaville do Finacial Times é dessa opinião. Não se pode dizer que tenha sido um momento brilhante do governo do Sr. Vargas e também de pouco adiantará culpar o governo anterior.

A ‘Jirga’ de Karzai

Posted in notas ao café by JN on Junho 8, 2010


Paresh Nath, «The Khaleej Times»

Cerca de 1600 delegados, incluindo 300 mulheres, na Jirga para a paz no Afeganistão apoiaram a decisão do Presidente Hamid Karzai em encetar negociações com os Taliban, no dia 4 de Junho. Ao mesmo tempo o Presidente afegão ordenou que sejam revistos os processos de todos os presos por suspeita de ligações aos Taliban e os 1600 líderes tribais e representantes de organizações civis pediram também ao Presidente que convença os líderes estrangeiros a retirar os nomes de 70 dirigentes Taliban da lista negra do terrorismo da ONU – uma iniciativa que se adivinha difícil, já que poria em causa a legitimidade da missão internacional iniciada em 2001.

Thomas Ruttig escrevia no Afghanistan Analysts Network que a Jirga estava destinada ao insucesso; muitas forças politicamente relevantes estavam ausentes e a maior dos presentes estariam fortemente condicionadas pelo governo de Hamid Karzai. A dar razão a Ruttig, a Jirga foi alvo de dois ataques dos rebeldes Taliban.


Paresh Nath, «The Khaleej Times»

Mas os problemas do Presidente Karzai não se ficam por uma conferência de paz fracassada: este domingo um comboio de blindados da NATO foi atacado por rebeldes Taliban nos arredores de Jalalabad, no este do Afeganistão, e pelo menos 13 pessoas ficaram feridas. Num outro ataque, esta segunda, dez soldados da NATO foram mortos, num dos piores dias para as forças internacionais no país este ano. Outros dois estrangeiros morreram em ataques levados a cabo pelos Taliban: eram ambos empregados de uma empresa privada e morreram num ataque suicida contra um centro de treino de polícia em Kandahar, a cidade-bastião dos Taliban onde as tropas da NATO se prepararam para levar a cabo uma grande ofensiva este verão.

A violência e a falta de soluções já fizeram baixas no governo afegão e mostrou as suas divergências internas: no domingo o Presidente Karzai aceitou as demissões do Ministro do Interior e do chefe dos Serviços Secretos afegãos. Amrulah Saleh e Mohamed Hanif Atmar, muito populares no país e junto da comunidade internacional, não terão sido capazes de explicar de forma convicta as razões que levaram à falha na segurança durante a conferência de paz. Mas segundo o New York Times, Saleh e Atmar forma forçados a demitirem-se pelo Presidente e ao mesmo tempo refere as divergências que existiam entre os dois demissionários e o Presidente quanto ao possível acordo de paz com os Taliban e a libertação de muitos deles. Por outro lado, o Sr. Saleh sempre foi crítico em relação ao Paquistão que acusa de apoiar os Taliban e outros grupos extremistas.


Paresh Nath, «The Khaleej Times»

Mil e uma censuras

Posted in notas ao café by JN on Junho 8, 2010

“Os tolos lêem um livro e não o entendem; os espíritos medíocres crêem entendê-lo perfeitamente; os grandes espíritos às vezes não o entendem por inteiro: acham obscuro o que é obscuro, como acham claro o que é claro; os espíritos afectados querem achar obscuro o que não o é, e não entender o que é muito inteligível.”

Jean de La Bruyére, in «Os Caracteres»


Emad Hajjaj

Ursula Lindsey, na Foreign Policy, escreve sobre os problemas de Gamal al-Ghitany, um escritor e editor de uma das mais prestigiadas revistas literárias do Egipto, desde que decidiu publicar umas das obras mais conhecidas do mundo árabe: As Mil e Uma Noites. Embora a primeira edição — uma série de edições de baixo custo patrocinada pelo governo — tenha esgotada nos primeiros dois dias, al-Ghitany vê-se alvo de perseguição de certos grupos religiosos mais conservadores, como os de al-Azhar, a maior Universidade islâmica do Egipto, que acusam o livro de ser “imoral” e uma ofensa contra a “decência pública”, um crime segundo a lei egípcia. Embora a literatura não seja censurada oficialmente no Egipto, muitas vezes muitos livros são retirados por serem causa de perturbação da ordem pública, em manifestações convenientemente organizadas por grupos como os de al-Azhar, ou pelos tribunais:

[…] How will the controversy over the Nights play out? It’s too soon to tell. The Egyptian public prosecutor is looking into the accusations against Ghitany, as well as several others who were involved in the publication of the book. According to Article 178 of Egypt’s penal code, they could go to jail for two years for publishing literature that is “offensive to public decency.” But the prosecutor could also dismiss the charges altogether.

Ghitany is a well-respected, well-connected public figure, and he and other Egyptian literati have mounted a vigorous counterattack, defending the Nights as a work that belongs to, and is admired by, the entire world. In a typical act of triangulation, the Egyptian authorities have decided not to bow to Islamist pressure, but also not to push the point too far. Ghitany has been allowed to go ahead and publish another 1,000 copies and distribute them only to government-run bookstores. But that’s all. Until, that is, the next “pornographic” or “blasphemous” book is published. It’s a story that’s starting to feel as long and as cyclical as the Thousand and One Nights itself.

Vantagens do trabalho…

Posted in palavras ao café by JN on Junho 8, 2010

“É difícil determinar se o trabalho deve ser colocado entres as causas da felicidade ou da infelicidade. É certo que há muitos trabalhos extraordinariamente aborrecidos e que o trabalho excessivo é sempre penoso. Penso, no entanto, que se não for excessivo, mesmo o trabalho mais monótono é para muitas pessoas preferível à ociosidade.
Há no trabalho, segundo a natureza da obra e a capacidade do trabalhador, todas as gradações, desde o simples alívio do tédio às satisfações mais profundas. Na maior parte dos casos, o trabalho que as pessoas têm de executar não é interessante, mas ainda em tais circunstâncias oferece grandes vantagens. Em primeiro lugar, preenche uma boa parte do dia sem haver necessidade de decidir sobre o que se há-de fazer. A maioria das pessoas, quando estão em condições de escolher livremente o emprego do seu tempo, têm dificuldade em encontrar o que quer que seja suficientemente agradável para as ocupar. E tudo o que decidam deixa-as atormentadas pela ideia de que qualquer outra coisa seria mais agradável.
Ser capaz de utilizar inteligentemente os momentos de lazer é o último degrau da civilização, mas presentemente muito poucas pessoas o atingiram. Além disso, a acção de escolher é fatigante. Excepto para os indivíduos dotados de extraordinário espírito de iniciativa, é muito cómodo ser-se informado do que se tem a fazer em cada hora do dia, desde que tais ordens não sejam desagradáveis em demasia.”

Bertrand Russell, in «A Conquista da Felicidade»


Frederick Deligne

Israel & Hamas vs. Gaza

Posted in notas ao café by JN on Junho 7, 2010


Daryl Cagle, «MSNBC.com»

O navio de bandeira irlandesa “Rachel Corrie”, que transportava ajuda humanitária à Faixa de Gaza, chegou ao porto israelita de Ashdod no sábado, depois de ser interceptado pela marinha de Israel. As autoridades israelitas afirmaram que os activistas a bordo do barco não ofereceram resistência e que a abordagem foi pacífica. Entretanto Israel iniciou o repatriamento dos 11 passageiros e oito tripulantes do “Rachel Corrie”.

Israel também rejeita qualquer tipo de investigação internacional sobre morte de activistas durante a acção contra o “Mavi Marmara”; numa entrevista à uma cadeia de televisão americana Fox News, o embaixador de Israel em Washington, Michael Oren, afirmou que além de não aceitar a investigação internacional, Isarel não pedirá desculpas formais à Turquia.

Ulrike Putz, na Der Spiegel, escreve que o problema da ajuda humanitária à Faixa de Gaza não está só no lado israelita. Segundo Putz, o Hamas apenas permite que produtos de primeira necessidade entrem no território e apenas com determinadas condições — a distribuição tem que estar sobre o seu controlo. Como escreve Putz, a ajuda nem sempre é bem-vinda a Gaza principalmente quando a luta é o poder, ou seja, quem está com a Fatah pouco ou nenhum acesso a esses bens terá:

[…] “People who are not in with Hamas don’t see any of the relief goods or the gifts of money,” Khadar says. On the sand dune where his house once perched, there is now an emergency shelter. The shelter is made of concrete blocks that Khadar dug from the rubble, and the roof is the canvas of a tent that provided the family with shelter for the first summer after the war. “Hamas supporters get prefabricated housing, furnishings and paid work. We get nothing,” Khadar complains. […]

The bulk of the goods, which were temporarily confiscated, have since been released by Israel and brought to the Gaza border. But now there’s another problem: Hamas is playing politics. The autocratic rulers of the Gaza Strip have placed conditions on aid delivery. The goods are not to be brought into the territory piece by piece, but all at once. All or nothing. By making these demands Hamas wants to ensure the building materials are all handed over. Since the end of the war Israel has impeded delivery of cement and steel because these items could be used for military facilities, including tunnels and bunkers. […]


Petar Pismestrovic, «Kleine Zeitung»

Mas, e segundo Putz, não é apenas Israel ou o Hamas que não vêem a ajuda com bons olhos; com uma economia em ruínas e elevados níveis de desemprego, a ajuda também é vista por alguns como mais um factor que contribuiu para mais desemprego:

There are people in Gaza though who will never be happy about the arrival of the aid. “Everything that arrives here, and is distributed free of charge, is bad for business,” says one Palestinian pharmacist, who studied in Germany but preferred not to give his name for fear of reprisals. Every medicine and every toy that well-meaning Westerners donate endanger the few jobs that still remain in Gaza, he explains. A colleague at another pharmacy agrees. “We are being bred into dependency,” he says, repeating the universal adage that guides international aid: “If you give a man a fish, you feed him for a day. But if you give him a fishing rod, you feed him for a lifetime.” […]


Olle Johansson

Pensamentos perdidos

Posted in palavras ao café by JN on Junho 7, 2010

“É sabido que comboios completos de pensamento atravessam instantaneamente as nossas cabeças, na forma de certos sentimentos, sem tradução para a linguagem humana, menos ainda para uma linguagem literária… porque muitos dos nossos sentimentos, quando traduzidos numa linguagem simples, parecem completamente sem sentido. Essa é a razão pela qual eles nunca chegam a entrar no mundo, no entanto toda a gente os tem.”

Fiodor Dostoievski, in «Uma Anedota Sórdida»


Erlich, «El País»

Tempos modernos (142)

Posted in tempos modernos by JN on Junho 7, 2010


Yaakov Kirschen, «Dry Bones»

Quotidianos (25)

Posted in quotidianos by JN on Junho 7, 2010

1 de Junho: Um rapaz lava melancias antes de as levar para um mercado em Jammu, Índia (Channi Anand/AP Photo).

1 de Junho: Uma menina come um gelado no Zoo de Pequim. Num discurso no Dia Mundial da Criança, o Presidente chinês, Hu Jintao, pediu mais atenção à segurança das crianças; em 2010 as autoridades chinesas registaram vários ataques violentos a escolas (Muhammed Muheisen/Associated Press).

2 de Junho: Um cão senta-se perto do que restou de uma casa depois de um incêndio em San Javier, Colômbia (Fredy Amariles/Reuters).

3 de Junho: Um casal é apanhado de surpresa durante uma cheia em Ternopil, Ucrânia, devido às fortes chuvas inundaram as ruas desta cidade (Viktor Gurniak/Reuters).

3 de Junho: Um homem mascarado, representado o diabo, conhecido por “El Colacho”, corre pelas ruas de Castrillo de Murcia, Espanha, durante a tradicional celebração do Corpo de Cristo(Felix Ordonez/Reuters).

4 de Junho: Um trabalhador indiano parte carvão numa fábrica de tijolos na periferia de Allahabad, Índia (Diptendu Dutta/AFP/Getty Images).

4 de Junho: Um tratador do Malabon Zoo, Manila, Filipinas, alimenta os crocodilos (Romeo Ranoco/Reuters)

À espera do mundial…

Posted in notas ao café by JN on Junho 6, 2010


Stephff

Apenas a alguns dias do começo do Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul, os líderes políticos em Pretoria estão ansiosos e ao mesmo tempo nervosos com o maior evento desportivo a ser realizado no país desde o fim do apartheid. O Presidente Jacob Zuma pode muito bem estar a colocar todo o seu futuro político na realização deste campeonato. Num país devastado, com elevados níveis de pobreza, desemprego e crime, ameaças de greves e protestos nas ruas colocam em risco o ambiente festivo que todos pretendem para o campeonato. Como escreve a Der Spiegel, alguns grupos podem aproveitar o momento em que o país é o centro da atenção mundial para promoverem os seus interesses:

[…] Tension and expectations have mixed with quiet fears that the football dream could become a nightmare. Even South Africa’s president, Jacob Zuma, seems not entirely free of anxiety. […]

He has good reason to be concerned. Despite the flags and the gorgeous stadiums, the new streets and well-armed police, his country is more divided than ever in recent history. No nation in the world has a gulf between rich and poor as great as South Africa’s.

Despite billions of euros in investments related to the 2010 World Cup, last year more than a million South Africans lost their jobs. […] The official unemployment rate is over 25 percent, the highest level seen in the past five years. Unofficially, it is estimated to be closer to 40 percent.

A recent study completed by the University of South Africa concluded that 75.4 percent of South Africans fall below the poverty level — and almost all those poor are black. “Persistent poverty, rising levels of unemployment and violent crime, together with the crisis in the public health sector,” writes Amnesty International in its annual report, have contributed at least as much as corruption and nepotism to the often violent protests that have recently shaken South Africa. […]

O cartoon de Tiananmen

Posted in cartoonistas, notas ao café by JN on Junho 6, 2010

No 21º aniversário dos protestos na Praça Tiananmen, a 4 de Junho de 1989, a única comemoração na China que foi visível foi um cartoon que invocava a famosa imagem de um homem solitário que pára de uma coluna de tanques, momento que ficou imortalizado pelo fotografo Jeff Widener. O cartoon foi publicado pelo Southern Metropolis Daily, um dos jornais mais controversos do país, no início desta semana, e mostra um rapaz de idade escolar a desenhar num quadro negro esse momento. Mas a censura sobre o que se passou em Tiananmen continua activa e o assunto tabu, mesmo 21 anos depois, e o cartoon foi removido do site do jornal antes do aniversário do acontecimento.

Alguns detalhes do cartoon permanecem obscuros, como a data no quadro negro, Maio de 1985. Mas o cartoon, da autoria de Xiang Ma, parece ser uma clara referência a Tiananmen. Mas censurar a Internet é algo impossível; o cartoon continua online:


Xiang Ma, «Southern Metropolis Daily»

Interesses vs. União

Posted in notas ao café by JN on Junho 5, 2010


Joep Bertrams

Hans-Jürgen Schlamp, na Der Spiegel, escreve que os verdadeiros responsáveis pela actual crise europeia, financeira e “existencial”, não são os gregos que fogem aos impostos ou os hedge funds; são os líderes políticos da zona euro os que têm a maior fatia de responsabilidade — não tiveram a vontade e/ou a capacidade de estarem à altura dos cargos para que foram eleitos e estão mais interessados em preservar o seu próprio poder e interesses que resolver os problemas da União:

When the financial institutions of the Western capitalist world began to wobble in the autumn of 2008 — with some collapsing and taking others with them — fear swept through the corridors of power. What could be done to stop an economic meltdown? Finance ministers and world leaders gathered at hectically planned crisis summits, where they applied Band-Aids to a severely wounded financial sector using billions of dollars and euros of taxpayers’ money and promised to stabilize the fragile system for all eternity.

More than a year has passed since then, but not much of substance has been done.

When the first states found themselves on the brink of bankruptcy — Latvia, Estonia, Hungary and then Greece — the leaders donated more and more billions of taxpayers’ money and prescribed drastic remedies in the form of stringent austerity measures — including for themselves. “We did what was necessary,” a confident German Chancellor Angela Merkel said at each stage of the crisis. Her colleagues nodded in satisfaction.

At the same time, most of them don’t even have a clue as to whether their activities have been helpful or counterproductive, or if they are even having any effect at all. […]

The fact is, however, that politicians aren’t even thinking about this. The men and women elected to higher office are mainly interested in one thing: getting re-elected and retaining their power. Anything else is secondary. […]


Stephff

Acção independente

Posted in palavras ao café by JN on Junho 5, 2010

“Durante a minha vida, fiz muitas coisas que não tinha decidido fazer, e não fiz outras que tinha firmemente decidido fazer. Algo que existe em mim, seja lá o que for, age; algo que me faz ir ter com uma mulher que já não quero voltar a ver, que faz ao superior um reparo que me pode custar o emprego, que continua a fumar embora eu tenha decidido deixar de fumar, e que deixa de fumar quando me resignei a ser um fumador para o resto dos meus dias.
Não quero dizer que o pensamento e a decisão não tenham alguma influência na acção. Mas a acção não decorre só do que foi pensado e decidido antes. Surge de uma fonte própria, e é tão independente como o meu pensamento e as minhas decisões.”

Bernhard Schlink, in «O Leitor»


Angel Boligan

Mars500

Posted in notas ao café by JN on Junho 5, 2010

Marte fotografado pela sonda Viking 1 a 22 Fevereiro de 1980. Em grande plano os Vales Marineris com os seus 4000 km de comprimento, 200 km de largura e 8 km de profundidade, na região de Tharsis onde também se encontra o vulcão Monte Olimpo, um vulcão extinto que é o maior vulcão do Sistema Solar. Ergue-se a 27 km acima do nível médio da superfície marciana (Foto: Astrofoto/NASA).

A simulação de uma viagem a Marte é o objectivo programa Mars500. Na experiência, em que também está envolvida a Agência Espacial Europeia, seis homens estarão isolados do resto do mundo num módulo construído para o efeito no Instituto de Problemas Médico-Biológicos de Moscovo, durante 520 dias.

O recurso água

Posted in notas ao café by JN on Junho 4, 2010


Dario Castillejos, «Dario La Crisis»

A The Economist apresenta uma reportagem especial sobre a água na qual se escreve que nos dias de hoje a palavra “crise” está sempre associada à palavra “água”. Desta diz-se que é o novo petróleo: um recurso durante muito tempo desperdiçado que agora em muitas regiões do globo é escasso e cada vez mais caro. Alterações ambientais tornam estes problemas ainda mais graves. Um bem ou um direito humano? É a grande pergunta que a Economist faz:

[…] Priced or not, water is certainly valued, and that value depends on the use to which it is harnessed. Water is used not just to grow food but to make every kind of product, from microchips to steel girders. […]

Industrial use takes about 60% of water in rich countries and 10% in the rest. The difference in domestic use is much smaller, 11% and 8% respectively. Some of the variation is explained by capacious baths, power showers and flush lavatories in the rich world. All humans, however, need a basic minimum of two litres of water in food or drink each day, and for this there is no substitute. […] That is why many people in poor and arid countries—usually women or children—set off early each morning to trudge to the nearest well and return five or six hours later burdened with precious supplies. That is why many people believe water to be a human right, a necessity more basic than bread or a roof over the head. […]

Throughout history, man’s dependence on water has made him live near it or organise access to it. […] It has provided not just life and food but a means of transport, a way of keeping clean, a mechanism for removing sewage, a home for fish and other animals, a medium with which to cook, in which to swim, on which to skate and sail, a thing of beauty to provide inspiration, to gaze upon and to enjoy. No wonder a commodity with so many qualities, uses and associations has proved so difficult to organise.


“Water”
Ares, «Cagle Cartoons»

Ideias vs. Palavras

Posted in palavras ao café by JN on Junho 4, 2010

“As nossas palavras giram em torno das nossas ideias porque não somos capazes de exprimir plenamente um pensamento por palavras, caso contrário o entendimento – pelo menos entre pessoas inteligentes – há muito estaria estabelecido. Mas os nossos pensamentos giram também em torno das nossas palavras, e é isso que é mais grave. Se tivéssemos a força, a coragem ou a possibilidade de pensar totalmente fora das palavras, estaríamos mais avançados do que o estamos agora.”

Arthur Schnitzler, in «Relações e Solidão»


Angel Boligan, «El Universal»

Proibido em Gaza

Posted in notas ao café by JN on Junho 3, 2010


Pat Bagley, «Salt Lake Tribune»

A atenção internacional está mais uma vez focada em Gaza depois de tropas israelitas terem abordado navios que levariam ajuda humanitária a este território. Desde 2006 Israel decidiu restringir a importação de certos produtos a este território controlado pelo Hamas a um “mínimo humanitário”, embora não exista nenhuma lista oficial que os comerciantes possam seguir. As decisões por parte do governo israelita são tomadas numa base caso a caso o que resultou numa variedade ímpar de produtos proibidos, detalhados (pdf) pela Gisha, uma organização israelita para os Direitos Humanos. Jornais, chá, papel A4 e chocolate são produtos que em determinada altura foram considerados proibidos. Mas, apesar de certos bens não podem ser trazidos de barco ou através de Israel, estes conseguem entrar em Gaza — muitas vezes de uma forma mais rápida e barata — através dos túneis que atravessam a fronteira com o Egipto. O principal impacto do bloqueio é sentido pela população do território, que está impedida de sair, e nas exportações com graves consequências para a economia de Gaza.

[Fonte: The Economist]

O fim da era Hatoyama

Posted in notas ao café by JN on Junho 3, 2010


Petar Pismestrovic, «Kleine Zeitung»

Oito meses depois de ter iniciado funções o primeiro-ministro japonês, Yukio Hatoyama, apresentou a sua demissão, depois de ter atingido picos de impopularidade elevados. Iniciou funções com uma taxa de popularidade de cerca de 70 por cento, mas rapidamente perdeu a sua base de apoio, essencialmente devido a contradições políticas, à sua falta de poder de decisão, e em particular por não ter cumprido uma promessa eleitoral: que a base americana deixaria a ilha de Okinawa. Em consequência, a coligação governamental de centro esquerda formada pelo Partido Democrata do Japão e por duas pequenas formações, incluindo o Partido Social-Democrata que se opunha à base, caiu.

O Sr. Hatoyama anunciou sua decisão por pressão do seu próprio partido por este temer resultados negativos nas eleições previstas para Julho. Com ele sai também Ichiro Ozawa, o seu influente aliado neste governo número dois. O que vai acontecer agora, quem irá substituir o Sr. Hatoyama, como escreve o Newsbook da The Economist é uma incógnita:

[…] It was not immediately clear who would replace Mr Hatoyama. Naoto Kan, deputy prime-minister and finance minister, was considered the most likely candidate, though an internal election of the ruling Democratic Party of Japan (DPJ) was called on June 4th and other cabinet members may stand against him, political analysts said. None of the potential candidates openly canvassed for the removal of Mr Hatoyama and Mr Ozawa, so it is hard to identify anyone in the party’s leadership who looks exceptionally courageous or politically astute. […]

Eterna divisão

Posted in notas ao café by JN on Junho 3, 2010

2 de Junho: Um soldado do Exército sul-coreano está de guarda na fronteira de facto entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul na aldeia de Panmunjom, localizada na província de Gyeonggi, que separa os dois países deste a Guerra da Coreia e onde foi assinado o armistício que colocou fim à guerra, em 1953 (Wally Santana/AP).

Com o caso do ataque de Israel a uma frota de navios que levava apoio humanitário para Gaza, o mais recente conflito entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, que ameaçou uma nova guerra na zona, parece ter sido esquecido. No entanto ele está ainda bem presente na Coreia do Sul e as eleições locais neste país são também um teste à actuação do Presidente Lee Myung-bak durante esta crise.


Chappatte, «NZZ am Sonntag»

Além de ter desaparecido, ou praticamente, dos jornais o discurso do próprio Presidente sul-coreano também foi alterado e é mais moderado actualmente e mesmo as sanções decretadas contra a Coreia do Norte foram “aliviadas”, como escreve o Korea Times:

[…] During a Cabinet meeting Tuesday, Lee unveiled his view on national security, saying it has become a major topic after the ship sinking near the maritime border in the West Sea on March 26. The tragedy claimed the lives of 46 sailors.

“When we say national security, words such as confrontation or face-off tend to come to our minds. I think now is the time for us to chart a security strategy that can usher the nation into reunification,” he said.

Lee put priority on reunification, not confrontation, at a time when tensions are mounting on the peninsula.

Observers speculate that his remarks may imply that the government will take a step back strategically, to avoid war on the peninsula.

Todas as evidências mostram que a Coreia do Norte esteve por trás do incidente com o navio da marinha de guerra sul-coreano, que causou a morte de 46 marinheiros sul-coreanos, mas os dois governos já perceberam que pouco terão a ganhar com o prolongar da tensão e muito menos com uma escalda militar e mais uma vez o status quo com mais de meio século foi mantido.


Farhad Foroutanian

Uma nova ordem

Posted in notas ao café by JN on Junho 2, 2010


Hajo de Reijger

Numa rara denúncia pública de Israel, o Conselho de Segurança da ONU condenou o ataque de Israel à frota com ajuda humanitária destinada a Gaza e lamentou a perda de vidas inocentes ocorridas. O Conselho também insistiu, assim como Anders Rasmussen, secretário-geral da NATO, que Israel liberte de imediato os 480 activistas detidos — segundo a BBC é algo que irá ocorrer nas próximas horas — e que todos os barcos capturados possam partir. Na mesma deliberação, foi pedido o levantar do bloqueio a Gaza apelidado de “insustentável”. Embora o texto final do Conselho de Segurança tivesse um tom mais fraco do que pretendiam a Turquia e o mundo árabe, foi bem mais forte do que outros, usualmente influenciados pela vontade de Washington sempre que o assunto é Israel.

A condenação de Israel é a todos os níveis surpreendente. Os EUA raramente permitiram que as resoluções do Conselho de Segurança que condenam Israel consigam ser aprovadas. Torna-se claro que o Presidente Obama instruiu o seu embaixador na ONU a juntar-se à condenação de Israel. Como a Turquia está actualmente no Conselho, é possível que os EUA tenham usado a condenação de Israel como moeda de troca com Ancara se querem ter algum sucesso em obter novas sanções contra o Irão – algo com que a Turquia, assim como o Brasil, não estão de acordo, embora nenhum dos dois tenha direito de veto.


Chappatte, «International Herald Tribune»

O incidente poderá ter repercussões nas relações entre Israel e a União Europeia, como escreve a Der Spiegel. O ministro dos Negócios Estrangeiros da irlandês, Micheal Martin, deu a entender que Dublin poderá chegar a cortar relações diplomáticas com Tel Aviv. Cerca de oito dos detidos por Israel são de origem irlandesa.

Mas a maior baixa do raid israelita é sem dúvida a ligação entre a Turquia e Israel e com Recep Tayyip Erdogan a acusar Israel de ter cometido um “massacre sangrento”, a pedir que o Israel seja “absolutamente punido” pelo ataque contra as embarcações turcas, Tel Aviv poderá ter perdido o seu único aliado islâmico na região. Ao mesmo tempo é mais um problema para o aliado comum, os EUA.

Stephen C. Webster, no The Raw Story, faz a analise do vídeo da abordagem ao Mavi Marmara. O momento em que uma nova ordem pode ter nascido no Médio Oriente: uma que junta a Turquia com o Irão, Iraque e a Palestina, em detrimento de Washington e Tel Aviv.

Andrew Sullivan escreve:

[T]he primary collateral damage is done to the West as a whole, to the US’s interests in the Middle East, and, of course, to Israel itself. Meanwhile, Iran is able to avoid what should be a moment of intense pressure – because Netanyahu’s bumbling bunch of thugs chose to give their mortal enemy a distraction.

Bibi is not just a thug; he’s incompetent. This attack was not just a crime; it was a mistake – but a helpful mistake if it can prod Jerusalem to realize that it needs to make a deal soon, and in this deal, Obama is Israel’s best friend. Maybe that is Obama’s calculation in rolling over to Jerusalem in this latest flap. But if he believes that enabling this kind of action will force Netanyahu into some sort of reasonable deal, he’s more optimistic than I am.


Rainer Hachfeld, «Neues Deutschland»

“Top Kill” falha

Posted in notas ao café by JN on Junho 1, 2010


Olle Johansson

A operação “Top Kill”, a última tentativa da BP em parar o derrame de petróleo no Golfo do México falhou e várias técnicas e 766 milhões de euros depois, a BP vai agora tentar serrar e extrair o tubo do poço petrolífero com a fuga e substituí-lo por uma tampa. No entanto, este novo método não oferece uma solução imediata para estancar a fuga e pode mesmo aumentar até 20 por cento a quantidade de combustível libertado para o Golfo como reconheceram responsáveis da BP e da administração americana. Tudo porque a operação inclui remover uma secção do tubo onde está montado um dispositivo mecânico que limita o fluxo.

A BP estima que só em Agosto a situação esteja resolvida e a Casa Branca admite que esta é a pior catástrofe natural de sempre no país e tenta a todo o custo o controle de danos mas as acusações que a BP continua a esconder o que realmente se está a passar e o governo americano o permite continuam. Para Frank Rich, no New York Times, o que se passa no Golfo do México é algo bem pior do que o furação Katrina de George W. Bush:

[…] Obama was elected as a progressive antidote to this discredited brand of governance. Of all the president’s stated goals, none may be more sweeping than his desire to prove that government is not always a hapless and intrusive bureaucratic assault on taxpayers’ patience and pocketbooks, but a potential force for good. […]

We expect him to deliver on this core conviction. But the impact on “the people” of his signature governmental project so far, health care reform, remains provisional and abstract. Like it or not, a pipe gushing poison into an ocean is a visceral crisis demanding visible, immediate action. […]


John Darkow, «Columbia Daily Tribune»

Para Eugene Robinson, no Washington Post, é altura de repensar a relação entre o desenvolvimento económico e a protecção ambiental:

[…] Barack Obama is, in many admirable ways, our most progressive president in decades. But as an environmentalist, let’s face it, he’s no Richard Nixon. Before the Deepwater Horizon rig exploded — allowing, by some estimates, as many as a million gallons of crude oil to gush into the Gulf of Mexico each day for more than a month — Obama had announced plans to permit new offshore drilling. “I don’t agree with the notion that we shouldn’t do anything,” Obama said at the time. “It turns out, by the way, that oil rigs today generally don’t cause spills. They are technologically very advanced.” […]

Obama has rethought his enthusiasm for offshore drilling. Now he, and the rest of us, should rethink the larger issue — the trade-off between economic development and environmental protection. In the long run, our natural resources are all we’ve got. Defending them must be a higher priority than our recent presidents, including Obama, have made it.

Energy policy is one of Obama’s priorities. He talks about “clean coal,” which I believe to be an oxymoron, and favors technologies — such as carbon capture and sequestration — that are new and untested. The environmental risks must be a central and paramount concern, not a mere afterthought. […]


Theo Moudakis, «Toronto Star»